O manifesto criptoanarquista

Editorial

Timothy C. May – 1992.

Um espectro está assombrando o mundo moderno.

A ciência da computação está a ponto de fornecer a grupos e indivíduos a capacidade de se comunicar e interagir uns com os outros de maneira totalmente anónima. Duas pessoas podem trocar mensagens, conduzir negócios e realizar contratos digitais sem nunca conhecer o verdadeiro nome ou a identidade legal da outra parte. Interações em rede serão irrastreáveis através do extensivo reencaminhamento de pacotes criptografados e caixas invioláveis, que implementam protocolos criptográficos com garantia quase perfeita contra qualquer adulteração. A reputações será de importância central, se tornando muito mais importante nas negociações do que as análises de crédito de hoje. Esses desenvolvimentos irão alterar completamente a natureza da regulamentação governamental, a capacidade de taxar e controlar as interações econômicas, a capacidade de manter as informações em segredo e até mesmo alterar a natureza da confiança e da reputação.

A tecnologia para essa revolução – que certamente será tanto uma revolução social quanto econômica – já existia, em teoria, durante a última década. Os métodos são baseados em criptografia de chave pública, sistemas de zero-knowledge interativos e vários protocolos de software para interação, autenticação e verificação. O foco, até agora, tem sido em conferências acadêmicas na Europa e nos EUA, conferências estas que são monitoradas de perto pela Agência de Segurança Nacional (NSA). Mas só recentemente as redes de computadores e computadores pessoais atingiram velocidade suficiente para tornar as ideias realizáveis na prática. E os próximos dez anos trarão a velocidade necessária para tornar as ideias economicamente viáveis e essencialmente imbatíveis. Redes de alta velocidade, caixas invioláveis, cartões inteligentes, satélites, transmissores, computadores pessoais e chips criptográficos, que estão agora em desenvolvimento, serão algumas das tecnologias facilitadoras.

O estado tentará, é claro, desacelerar ou deter a disseminação destas tecnologias, citando preocupações com a segurança nacional, o uso da tecnologia por traficantes de drogas e sonegadores de impostos, e temores de desintegração social. Muitas dessas preocupações serão válidas; a criptoanarquia permitirá que segredos nacionais sejam vendidos livremente e permitirá que materiais ilícitos e roubados sejam comercializados. Um mercado informatizado e anônimo se tornará um possível abominável mercado para assassinatos e extorsões. Vários elementos criminosos e estrangeiros serão usuários ativos da CriptoNet. Mas isso não vai parar a propagação da criptoanarquia.

Assim como a tecnologia da impressão alterou e reduziu o poder das guildas medievais e a estrutura do poder social, os protocolos criptográficos também vão alterar fundamentalmente a natureza das corporações e as interferências do governo nas transações econômicas. Combinado com mercados de informação emergentes, a criptoanarquia criará um mercado líquido para todo e qualquer material que possa ser colocado em palavras e imagens. E assim, como uma invenção aparentemente insignificante, como o arame farpado tornou possível o cercamento de vastas fazendas e territórios, alterando para sempre os conceitos de terra e direitos de propriedade na fronteira ocidental, também, a descoberta aparentemente menor de um ramo arcano da matemática se tornará o cortador de arame que desmontará o arame farpado em torno da propriedade intelectual.

Ergam-se, vocês não têm nada a perder a não ser as cercas de arame farpado!

D.E.P. Tim May (21 de dezembro de 1951 – 13 de dezembro de 2018)

Fonte: https://www.activism.net/cypherpunk/crypto-anarchy.html

António Chagas
Sou gestor de comunidades relacionadas com as criptomoedas em Portugal e entusiasta da tecnologia blockchain desde 2016. A minha especialização é em criptoeconomia e a minha missão é promover a partilha de conhecimento sobre esta nova área em português
https://criptoeconomia.pt

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