No passado dia 23 de novembro de 2019, Vitalik Buterin, o famoso escritor e programador Russo-Canadense conhecido como o co-fundador do Ethereum, publicou no seu blog (vitalik.ca) o artigo Hard Problems in Cryptocurrency: Five Years Later. Artigo que, como o nome indica, faz um retrato muito interessante sobre o estado da arte do ecossistema através da apresentação de uma lista de problemas e os seus respetivos updates.

Importa referir que esta publicação veio no seguimento de um post de 2014 e apresentação.

Passaram-se entretanto 5 anos (uma eternidade em cripto) pelo que acresce de importância acompanhar a evolução de todos os pontos entretanto abordados.

Nesta atualização, Vitalik dividiu em 3 categoriais de problemas:

  1. Criptográficos – sendo portanto solucionáveis com técnicas puramente matemáticas (caso seja pretendido)
  2. Consenso – em grande parte melhorias na prova de trabalho (PoW) e prova de participação (PoS); e
  3. Económicos – estando portanto relacionado com a criação de estruturas que envolvam incentivos concedidos a diferentes participantes e geralmente envolvem mais a camada de aplicação do que a camada de protocolo.

Para Vitalik, existe um progresso significativo em todas as categorias, embora algumas mais que outras.

 

1) Criptografia Post-quantum

A criptografia de curva elíptica é a principal proteção da rede Bitcoin contra o roubo de ativos de outra pessoa. E é seguro porque seria necessário um computador realmente poderoso para quebrar a criptografia.

No entanto, o Google recentemente apresentou um computador quântico capaz de 53 “quantum bits” (qubits), conhecido como Sycamore. É capaz de fazer cálculos que normalmente levam mais de 10.000 anos para serem executados, em 200 segundos. Isso fez com que muitos se preocupassem como isso afetaria a criptografia subjacente à maioria dos criptoativos.

Alimentando esta preocupação, um artigo de pesquisadores do Russian Quantum Center sugeriu que a computação quântica poderia eventualmente tornar o blockchain completamente obsoleto.

“Dentro de dez anos, os computadores quânticos serão capazes de calcular as funções unidirecionais, incluindo cadeias de blocos, usadas para proteger a Internet e as transações financeiras. A criptografia unidirecional amplamente implantada ficará instantaneamente obsoleta”.

 

2) Construindo identidades humanas únicas

Um caso de uso potencial da tecnologia blockchain é a votação. Isso pode ser para a governance on-chain, onde os proprietários de moedas escolhem como a tecnologia por trás da moeda é desenvolvida. No entanto, o grande desafio aqui é a manipulação de votos. Se cada conta tiver um único voto, como você sabe que várias contas não pertencem à mesma pessoa, tornando o voto inválido? (Isto chama-se de Ataque Sybil)

A solução mais imediata é que cada indivíduo tenha identidades humanas únicas na blockchain – quer os dados pessoais estejam publicamente disponíveis ou não. O importante é que cada endereço ou identidade humana única esteja vinculada a uma pessoa real. Mas é difícil fazer isso na prática.

Esse é um dos problemas mais antigos que Buterin destacou. Tradicionalmente, olhava-se para soluções absolutas, potencialmente envolvendo algum tipo de processo de verificação envolvendo identidades humanas únicas (KYC). Nesses casos, não seria possível obter duas contas. Mas concluiu que uma solução melhor poderá envolver identidades humanas semi-únicas, onde é possível (embora mais difícil) obter duas identidades. Isso ocorre porque:

“making it impossible to get multiple identities is both impossible and potentially harmful even if we do succeed.”

(tornar impossível obter múltiplas identidades é igualmente impossível e potencialmente prejudicial, mesmo que tenhamos sucesso)

 

3) Criando mecanismos de governance descentralizados

As organizações autónomas descentralizadas (DAOs) estão voltando um pouco nos últimos meses. Após o choque do DAO – o desastre de US $ 50 milhões do Ethereum – que o levou a ser um tópico doloroso na comunidade, os esforços recentes do CEO da Spankchain, Ameen Soleimani, levaram a uma nova onda de DAOs.

 

4) Defendendo redes de proof-of-stake (prova de participação)

A ameaça de um ataque de 51% sempre existiu desde o lançamento do Bitcoin. A ideia é que, se um indivíduo conseguir produzir mais blocos na cadeia do que o resto da rede combinada, este será capaz de efetuar atos prejudiciais à própria rede (como gasto duplo ou censurar transações). Isto no caso de redes que usem proof-of-work (ou prova-de-trabalho) como forma de consenso para criar novos blocos.

No entanto, alguns projetos estão movendo-se na direção a um mecanismo de consenso de proof-of-stake (ou prova de participação). É aqui que os mineradores não precisam mais exercer energia computacional numa corrida para criar o próximo bloco. Em vez disso, os blocos são criados proporcionalmente à quantidade de criptoativos que cada participante colocou como garantia (“staked”).

Se alguém tentasse um ataque de 51% a uma rede de prova-de-participação (proof-of-stake), precisaria apostar mais da metade de todas as moedas apostadas por todos os outros. E se com isso o agente danificasse a rede de alguma forma, eles poderiam perder muito dinheiro. Mas, como Buterin disse em um discurso na Devcon5, alguns atores ruins podem ter maiores incentivos do que os puramente económicos, como por exemplo, um ator estatal.

Portanto, é importante que as redes de prova-de-participação se defendam contra essa ameaça. Algo que Buterin já está considerando nos fóruns públicos do Ethereum.

Keynote Speech Vitalik Buterin at Devcon5 Osaka – Japan

 

5) O problema dos Oráculos

Esse é outro problema de longa duração que afeta uma das ideias mais ambiciosas de blockchain, a de finanças descentralizadas (DeFi). As cadeias de bloco podem ser descentralizadas e conhecidas por serem seguras por si mesmas, mas se quiserem interagir com dados do mundo real, como informações de preços para várias moedas, precisam interagir com serviços centralizados. O problema é: como o blockchain obtém as informações de uma maneira confiável que não possa ser manipulada?

As principais soluções para o problema são os provedores de oráculos descentralizados, estes usam incentivos financeiros ou outras soluções para obter os dados de uma maneira mais descentralizada (não depende de um único intermediário). Alguns exemplos são Chainlink e Band Protocol.

Por último, Buterin comentou no final da sua lista atualizada que ele de futuro pretendia remover o foco em “métricas de sucesso” para se concentrar mais nos problemas em geral.

 

Fontes: